Auxílio à criatividade, não substituição da criatividade? Já passamos por isso antes [2], e esse é um slogan particularmente adequado para descrever uma família de produtos concebidos para ajudar MJs a desenvolver suas próprias aventuras. Geradores aleatórios têm sido utilizados para estimular nossa imaginação e criar novas combinações interessantes desde as Ready Ref Sheets e os apêndices do Dungeon Master’s Guide [1e]; embora as tabelas aleatórias tenham saído de moda entre meados dos anos 80 e o início dos anos 2000, elas experimentaram um renascimento e continuam mais fortes do que nunca. A geração procedural tem presença marcante fora dos RPGs de mesa, permeando os mundos dos jogos de computador desde Elite até Minecraft (sem mencionar o poço profundo e sombrio dos roguelikes).
A aleatoriedade, é claro, não produz significado inerente algum, deixando para nós a tarefa de projetar nela o nosso próprio significado. Uma sala de masmorra com um “trono de fogo”, um “feitor ogro” e um “martelo de guerra mágico” é uma miscelânea de elementos díspares; é preciso a imaginação humana para ligar os pontos e transformar a tagarelice aleatório em algo significativo. (Talvez o trono de fogo seja um instrumento de tortura, o ogro seja um carcereiro e tenha roubado a arma de um anão aprisionado? Ou estamos no salão do rei dos gigantes de fogo, o ogro é seu subordinado e está guardando o símbolo de poder do rei?) Assim como os módulos são uma estrutura para conduzir uma aventura de fato, as tabelas aleatórias servem como estrutura para a imaginação do MJ. E, assim como os módulos, os resultados finais devem carregar a marca pessoal do MJ e, em última instância, de todo o grupo de jogo. É assim que cocriamos, e é assim que o todo pode ser maior do que a soma de suas partes díspares.
Se tudo é tão subjetivo e variável, é possível realmente resenhar uma coleção de tabelas aleatórias? É possível realmente distinguir uma boa tabela de uma ruim? Ao longo dos anos, usei muitas tabelas aleatórias e descobri que algumas se mostraram consistentemente úteis, enquanto outras quase nunca são consultadas. Há qualidades que tornam certas tabelas mais adequadas para provocar a imaginação. Isso tem a ver com o poder imaginativo das entradas — sua capacidade de evocar imagens que podem ser desenvolvidas em aventuras de fantasia.
Para que façam sua mágica, precisamos confiar o bastante nas tabelas para segui-las a algum lugar. Mas elas precisam nos levar a algum lugar especial — lugares imaginários de maravilha e ameaça. Uma tabela que não nos tira de nosso atual estado de espírito não é um bom auxílio à criatividade, porque já estamos lá. D&D possui uma linguagem comum — portas de carvalho, corredores escuros, fossos, magos e goblins e talvez beholders — que é intimamente familiar até mesmo para pessoas que não jogam D&D. São “tropos” (uma palavra horrível incorporada naquele que talvez seja o produto mais horrível do autismo internerd, o TVTropes). Boas tabelas nos levam para além do básico — ainda é a mesma linguagem, mas em uma camada mais rica, profunda e variada.
| Arte por Edward Coley Burne-Jones... |
Parte do poder imaginativo das tabelas aleatórias reside na força dos núcleos de ideias individuais, mas tanto quanto isso depende da combinação e justaposição de elementos que se encaixam de maneiras que não são inteiramente confortáveis. Tensão criativa — o choque de combinações inesperadas e as imagens que elas criam — é o que leva a mente para além dos limites dos padrões rotineiros de pensamento. Contudo, há um limite para a estranheza, além do qual ela deixa de ser significativa. Pássaros quadrados em molho púrpura? Esses elementos não se encaixam em um todo coerente. É preciso haver um momento de “ligação” em que as peças se ajustem umas às outras e criem algo novo. “Serpentes” e “portões” são imagens poderosas por si mesmas, carregadas de significado simbólico — mas um portão-serpente? Isso certamente é algo a mais. Um “portão com um espelho-serpente”? Agora estamos chegando lá. No entanto, também estamos ficando mais específicos, o que pode limitar nossas opções e nos reduzir a caminhos óbvios, nos quais imagens potentes são diluídas novamente até se tornarem clichês.
Resultados abertos à interpretação são melhores do que resultados estáticos e imutáveis. Isso está no cerne do poder “oracular” das tabelas — elas dizem a verdade, mas a verdade que dizem é diferente de uma perspectiva para outra. Esse é um equilíbrio traiçoeiro de alcançar — específico o bastante para ser poderoso, geral o bastante para se encaixar em muitas situações diferentes — e apenas vago o suficiente. Sonhos são o exemplo clássico a que se recorre (e, de fato, os Surrealistas já haviam descoberto isso, incluindo o uso da geração aleatória para combinar imagens oníricas). As melhores tabelas podem ser reutilizadas repetidamente, porque seus resultados possuem um caráter universal. Isso não significa que sejam genéricas. A tabela "Ruínas & Relíquias” das Ready Ref Sheets, as tabelas de encontros aleatórios em áreas selvagens do Dungeon Masters Guide, ou a primeira tabela “Locais (Visão Geral)” do Tome of Adventure Design possuem, todas elas, uma personalidade marcante que influencia seus resultados. De fato, “Ruínas & Relíquias” é tão fundamental para a identidade das Wilderlands quanto as tabelas do DMG são para “a campanha de AD&D”, e a tabela do ToAD é para a visão de Mythmere da “fantasia estranha” como a chave para a redescoberta do RPG old-school. Essas tabelas são fundacionais.
E, por fim, há a aleatoriedade. Um gerador totalmente aleatório é apenas o ruído de mil macacos diante de mil máquinas de escrever. Ele pode produzir algo bom — mas não produzirá. Um gerador aleatório cujos resultados podem ser previstos, ou que não produz novidade, é supérfluo: todos já possuem, por padrão, as ideias que ele produz. E há uma terceira distinção, mais sutil: embora um caleidoscópio sempre produza algo diferente, ele sempre produz a mesma coisa — uma imagem caleidoscópica. É uma ferramenta poderosa, mas limitada.
∞ Gabor Lux ∞
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1. https://beyondfomalhaut.blogspot.com/2019/07/blog-noise-or-signal-further-thoughts.html
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