(Tradução, com permissão do autor, do texto presente em [1], publicado em setembro de 2010) |
| Em tempos de cartilhas de segurança, de consentimentos, e mesas comissionadas, achamos pertinente trazer mais este texto de Maliszewski... |
Acho justo dizer que um dos editoriais mais amplamente criticados de Gary Gygax apareceu na edição 67 (novembro de 1982) da revista Dragon. Intitulado “Poker, Chess, and the AD&D System”, ele é geralmente entendido como a declaração mais forte de Gary contra adicionar ou subtrair coisas do que está contido nos diversos livros de regras de AD&D. Por exemplo, ele diz:
O sistema de jogo AD&D não permite a inserção de material estranho. Isso está claramente declarado nos livros de regras. Trata-se, portanto, de algo simples: ou se joga o jogo AD&D, ou se joga outra coisa, assim como se joga pôquer de acordo com Hoyle, ou xadrez (ocidental) pelas regras de torneio, ou não se joga. Como o jogo é propriedade exclusiva da TSR e de seu criador, o que é oficial e o que não é tem importância para quem joga o jogo. Jogadores sérios aceitarão apenas material oficial, pois jogam o jogo, em vez de apenas “brincar” de jogar, como fazem aqueles que gostam de regras caseiras no pôquer ou que apenas empurram peões no tabuleiro de xadrez. Nenhum poder na Terra pode impedir que jogadores adicionem regras e materiais espúrios aos sistemas de D&D ou AD&D, mas, da mesma forma, não se pode então afirmar que se está jogando qualquer um desses jogos. Tais jogos não são D&D ou AD&D — são outra coisa, classificável apenas sob o rótulo genérico “FRPG” [Fantasy RPG]. Em suma, se você joga ou não qualquer um desses jogos é problema seu, mas, para dizer que joga, é obviamente necessário jogar com as regras oficiais, tal como escritas. Assim, quando você recebe informações nestas páginas que trazem o selo “oficial”, isso significa que podem ser usadas imediatamente no jogo.
Muita discussão interessante poderia surgir apenas explorando esse parágrafo, mas esse não é meu objetivo aqui. Quis apenas apresentar um exemplo ilustrativo do tipo de retórica que era bastante comum no final da Era de Ouro [2], embora, se observarmos atentamente, possamos encontrar declarações semelhantes desde o início de todo o projeto AD&D.
Agora, como leitores regulares saberão, eu não concordo muito com a atitude expressa na citação acima, mas, após refletir bastante sobre isso, acho que passagens como essa precisam ser vistas dentro de um contexto mais amplo. Gygax expressou esse contexto de forma especialmente clara no prefácio de seu Dungeon Masters Guide, que também, não por acaso, é visto com certo desdém por jogadores de uma determinada inclinação filosófica. Ele diz:
Retornando novamente ao aspecto estrutural de ADVANCED DUNGEONS & DRAGONS, o objetivo é criar um “universo” no qual campanhas semelhantes e mundos paralelos possam ser inseridos. Com certa uniformidade de sistemas e “leis”, os jogadores poderão passar de uma campanha para outra e conhecer ao menos os princípios elementares que regem o novo ambiente, pois todos os ambientes terão certas leis em comum (embora não necessariamente as mesmas). Raças e classes de personagens serão praticamente as mesmas. Os atributos dos personagens terão o mesmo significado — ou quase. Feitiços mágicos funcionarão de uma determinada maneira, independentemente do mundo em que o jogador esteja atuando. Itens mágicos certamente variarão, mas seus princípios serão semelhantes. Essa uniformidade ajudará não apenas os jogadores, mas permitirá que os MJs conduzam um diálogo significativo e troquem informações úteis. Isso pode até eventualmente levar a grandes torneios, nos quais pessoas de qualquer parte dos EUA, ou mesmo do mundo, possam competir por reconhecimento.
Novamente, há muito nesse parágrafo que poderia servir como ponto de partida para discussão, mas, para os meus propósitos aqui, o ponto importante é este: Gary está falando das vantagens da uniformidade para o jogador. O que ele imagina é uma situação em que um jogador pode ir de campanha em campanha ao redor do mundo e saber, ao se sentar à mesa, que o MJ estará usando exatamente as mesmas regras que ele usava em casa, assim como você pode ir a qualquer lugar do mundo e começar a jogar xadrez ocidental com um estranho, com a razoável certeza de que ambos estão seguindo as mesmas regras.