sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Que É um RPG de Mesa?

(Tradução, com permissão do autor, do texto presente em [1], publicado em fevereiro de 2020)

O que é um jogo de interpretação de papéis?

Não podemos simplesmente adotar a definição de obscenidade de Potter Stewart, “Eu sei quando vejo uma”? Poderíamos e, para a maioria dos propósitos, essa definição seria suficiente. Se vamos projetar jogos ou aventuras para outras pessoas, então precisamos ir um passo além. Precisamos ter clareza sobre o que estamos criando.

Duas perguntas importantes no pensamento de design são: “Para que serve?” e “Para quem é?” Se sabemos para quem é e para que serve, temos uma ideia muito melhor do que ele é.

Para que serve?

Muitos jogadores presumem que os RPGs servem para proporcionar diversão. Diversão ou entretenimento é a experiência que quase todos os RPGs pretendem produzir, mas não todos.

Um número pequeno de jogos, mas diferente de zero, não tem como propósito a “diversão”. Alguns jogadores querem um desafio mental exaustivo. Alguns jogos servem para explorar questões sociais difíceis, criar uma atmosfera romântica entre dois jogadores ou fazer terapia. Existem também os Serious Games [Jogos Sérios]; um tipo de jogo de interpretação usado por militares, think tanks, órgãos governamentais e empresas para simular crises do mundo real.

Serious Games podem ser “divertidos” de alguma maneira para os jogadores, mas esse não é seu propósito. A “diversão” é incidental. Um funcionário da área de saúde pública pode gostar do trabalho de pensar em como responderá à próxima grande pandemia, mas o objetivo não é se divertir. É desempenhar o papel de um tomador de decisões e lidar com um desastre. A “diversão” não é necessária nem constitui a intenção do designer.

Esse tipo de jogo não é o que a maioria dos jogadores procura. No entanto, quero incluí-los neste raciocínio porque eles pertencem à mesma categoria de jogos que Dungeons & Dragons, Shadowrun e Call of Cthulhu. Todos eles são jogos de interpretação de papéis.

Incluir serious games e jogos voltados à diversão na mesma categoria significa que: “RPGs de mesa servem para proporcionar uma experiência social, intelectual ou emocional que seja nova, incomum ou impossível de vivenciar nas condições normais da vida dos participantes.

Esse é um propósito que abrange tanto os jogos voltados à diversão quanto os serious games que utilizam métodos de interpretação de papéis. Nós nos reunimos para tomar decisões, para desempenhar um papel, em uma situação que, de outra maneira, não poderíamos vivenciar. Essa interpretação pode ser divertida; pode também ser levada com absoluta seriedade.

Para quem é?

Isso nos leva à pergunta: “Para quem é?” De modo geral, RPGs serão para pessoas que querem vivenciar experiências que não têm em sua vida cotidiana. Elas querem ser um herói, um mago homicida e errante, o piloto de um cargueiro espacial, um assassino cibernético, um vampiro agarrado ao último fragmento de sua humanidade ou qualquer uma entre centenas de outras personalidades. É divertido desempenhar o papel de um oficial de ciências de uma nave estelar tentando se comunicar com o alienígena que não para de comer sua equipe de segurança. Quando você pode fazer isso com seus amigos, melhor ainda.

RPGs de mesa são para pessoas que querem vivenciar a experiência de desempenhar o papel de uma pessoa em uma situação diferente daquela de sua vida cotidiana.

Isso parece um pouco redundante em relação à nossa discussão sobre “Para que serve?”. Tenho quebrado a cabeça com isso há algum tempo e não tenho uma resposta melhor do que essa. Um bom designer será muito mais específico sobre para quem um determinado jogo se destina. Um jogo sobre os Mitos de Cthulhu ambientado na antiga Babilônia será destinado a um público que queira esse jogo. Um serious game para a Equipe de Gerenciamento de Crises da cidade de Nova York poderia tratar de um evento com muitas vítimas causado por um furacão.

Temos o “o quê” e o “quem”. RPGs de mesa são para pessoas que querem desempenhar o papel de um personagem fictício com o propósito de vivenciar a resolução de problemas e a tomada de decisões do ponto de vista de uma pessoa naquele papel.

Isso nos diz muito sobre o que são os RPGs. Isso nos revela sua essência.

Por que tenho tanta certeza de que não é uma história?

Recentemente, participei de um workshop on-line sobre storytelling para marketing. O material do curso definia história da seguinte maneira: Personagens — Em uma situação — Fazendo escolhas. Chapeuzinho Vermelho (personagem) está caminhando pela floresta (situação) e conversa com um estranho (faz uma escolha).

Você pode pensar consigo mesmo: “Ora, ele acabou de definir o que acontece em um RPG! Afinal, RPGs são histórias, seu idiota!” Calma lá. Minha definição de um RPG é semelhante, mas ligeiramente diferente.

Um RPG é um jogo no qual personagens controlados pelos jogadores, em uma situação, fazem escolhas que produzem resultados decorrentes das escolhas feitas pelos jogadores.

São os jogadores que fazem as escolhas. Essa é a essência de um jogo: as decisões dos jogadores. Lembre-se do nosso “quem”. Pessoas que querem fazer escolhas no papel de personagens fictícios. Elas querem ter controle sobre esses personagens.

Muitos designers de jogos acreditam que RPGs são uma forma de narrativa colaborativa. Eu discordo.

Uma história é uma analogia. Eis o que acontece se você fizer isto naquela situação. Tudo em uma história (uma boa, pelo menos) é construído para produzir um resultado específico e expressar uma solução específica para o conflito central da história. As escolhas do protagonista conduzem a resultados que sustentam a tese que o(s) contador(es) da história está(ão) tentando transmitir ao público.

Em um jogo, os mecanismos do jogo têm voz no resultado. Esses mecanismos podem produzir um resultado que os jogadores e os mestres de jogo não queriam ou não esperavam. A narrativa do que aconteceu no jogo emerge da interação entre a situação apresentada pelo mestre de jogo, as escolhas dos jogadores e os mecanismos do jogo. Qualquer jogo que tenha uma mecânica de resolução aleatória, como dados ou cartas, produzirá às vezes resultados não intencionais e até mesmo indesejáveis. É isso que faz deles jogos, e não histórias.

RPGs usam histórias para estabelecer o contexto do jogo. Eles produzem histórias, mas não são histórias durante o momento em que os jogadores estão fazendo escolhas. Eles são uma combinação complexa de história e jogo, mas não são exclusivamente história.

Juntando tudo

Minha definição de um RPG:

Um jogo que utiliza narrativa para comunicar o contexto de uma situação fictícia e o estado do jogo [2]. Os jogadores fazem escolhas como personagens fictícios dentro da situação fictícia. O resultado das escolhas dos jogadores é resolvido pela combinação de regras, adjudicação por um mestre de jogo/árbitro ou software de computador. Os resultados dessas escolhas são comunicados por meio de narrativa, de modo que possam ser compreendidos pelos jogadores e pelo mestre de jogo ou árbitro.

∞ Travis Miller ∞

1. https://grumpywizard.home.blog/2020/02/11/what-is-a-table-top-role-playing-game/

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