| Em tempos de cartilhas de segurança e mesas comissionadas, achamos pertinente trazer mais este texto de Maliszewski... |
Acho justo dizer que um dos editoriais mais amplamente criticados de Gary Gygax apareceu na edição 67 (novembro de 1982) da revista Dragon. Intitulado “Poker, Chess, and the AD&D System”, ele é geralmente entendido como a declaração mais forte de Gary contra adicionar ou subtrair coisas do que está contido nos diversos livros de regras de AD&D. Por exemplo, ele diz:
O sistema de jogo AD&D não permite a inserção de material estranho. Isso está claramente declarado nos livros de regras. Trata-se, portanto, de algo simples: ou se joga o jogo AD&D, ou se joga outra coisa, assim como se joga pôquer de acordo com Hoyle, ou xadrez (ocidental) pelas regras de torneio, ou não se joga. Como o jogo é propriedade exclusiva da TSR e de seu criador, o que é oficial e o que não é tem importância para quem joga o jogo. Jogadores sérios aceitarão apenas material oficial, pois jogam o jogo, em vez de apenas “brincar” de jogar, como fazem aqueles que gostam de regras caseiras no pôquer ou que apenas empurram peões no tabuleiro de xadrez. Nenhum poder na Terra pode impedir que jogadores adicionem regras e materiais espúrios aos sistemas de D&D ou AD&D, mas, da mesma forma, não se pode então afirmar que se está jogando qualquer um desses jogos. Tais jogos não são D&D ou AD&D — são outra coisa, classificável apenas sob o rótulo genérico “FRPG” [Fantasy RPG]. Em suma, se você joga ou não qualquer um desses jogos é problema seu, mas, para dizer que joga, é obviamente necessário jogar com as regras oficiais, tal como escritas. Assim, quando você recebe informações nestas páginas que trazem o selo “oficial”, isso significa que podem ser usadas imediatamente no jogo.
Muita discussão interessante poderia surgir apenas explorando esse parágrafo, mas esse não é meu objetivo aqui. Quis apenas apresentar um exemplo ilustrativo do tipo de retórica que era bastante comum no final da Era de Ouro [2], embora, se observarmos atentamente, possamos encontrar declarações semelhantes desde o início de todo o projeto AD&D.
Agora, como leitores regulares saberão, eu não concordo muito com a atitude expressa na citação acima, mas, após refletir bastante sobre isso, acho que passagens como essa precisam ser vistas dentro de um contexto mais amplo. Gygax expressou esse contexto de forma especialmente clara no prefácio de seu Dungeon Masters Guide, que também, não por acaso, é visto com certo desdém por jogadores de uma determinada inclinação filosófica. Ele diz:
Retornando novamente ao aspecto estrutural de ADVANCED DUNGEONS & DRAGONS, o objetivo é criar um “universo” no qual campanhas semelhantes e mundos paralelos possam ser inseridos. Com certa uniformidade de sistemas e “leis”, os jogadores poderão passar de uma campanha para outra e conhecer ao menos os princípios elementares que regem o novo ambiente, pois todos os ambientes terão certas leis em comum (embora não necessariamente as mesmas). Raças e classes de personagens serão praticamente as mesmas. Os atributos dos personagens terão o mesmo significado — ou quase. Feitiços mágicos funcionarão de uma determinada maneira, independentemente do mundo em que o jogador esteja atuando. Itens mágicos certamente variarão, mas seus princípios serão semelhantes. Essa uniformidade ajudará não apenas os jogadores, mas permitirá que os MJs conduzam um diálogo significativo e troquem informações úteis. Isso pode até eventualmente levar a grandes torneios, nos quais pessoas de qualquer parte dos EUA, ou mesmo do mundo, possam competir por reconhecimento.
Novamente, há muito nesse parágrafo que poderia servir como ponto de partida para discussão, mas, para os meus propósitos aqui, o ponto importante é este: Gary está falando das vantagens da uniformidade para o jogador. O que ele imagina é uma situação em que um jogador pode ir de campanha em campanha ao redor do mundo e saber, ao se sentar à mesa, que o MJ estará usando exatamente as mesmas regras que ele usava em casa, assim como você pode ir a qualquer lugar do mundo e começar a jogar xadrez ocidental com um estranho, com a razoável certeza de que ambos estão seguindo as mesmas regras.
Acho que, entendido nesse contexto, as frequentes explosões intempestivas de Gygax sobre “uniformidade” e regras “oficiais” fazem um pouco mais de sentido, ainda que eu continue achando que, no fim das contas, elas são absurdas. A realidade é que, tanto antes quanto depois da chegada do AD&D, não apenas os jogadores, mas também os personagens se moviam facilmente de uma campanha para outra. “Participações ocasionais” ´[“drop-ins”] eram muito comuns nos primórdios do hobby. Aliás, essas coisas ainda eram bastante comuns quando entrei no hobby pela primeira vez, cinco anos após o surgimento do OD&D. O que me lembro é que, como cada campanha era diferente, operando sob diferentes interpretações de regras e pressupostos [3], “visitar” com seu personagem frequentemente significava ter que fazer alguns ajustes em seus atributos e equipamentos. Era assim que as coisas funcionavam e ninguém realmente parecia esperar algo diferente.
Mas, claro, tanto naquela época quanto hoje, eu raramente joguei D&D — ou qualquer RPG — com completos desconhecidos. Talvez eu seja estranho nesse aspecto, mas não acho que seja. Suspeito que a maioria dos jogadores joga com pessoas que considera amigas, com quem passaria tempo mesmo que não estivessem jogando RPG. Exceto por algum eventual “dia de jogo” a cada poucos meses, eu nunca aparecia de surpresa [“drop-in”] em uma campanha com a qual não tivesse alguma conexão amigável prévia. Assim, se o árbitro dessa campanha conduzia D&D de maneira diferente da minha, eu confiava que ele deixaria claras todas essas diferenças e não tentaria se aproveitar da minha ignorância das “leis locais”. E eu retribuía esse comportamento quando amigos de outras campanhas participavam da minha.
Na verdade, é assim que eu lido com meus próprios jogadores também. Quero dizer, somos amigos e, embora eu me divirta bastante enganando e confundindo-os na campanha, isso não é diferente da diversão que tenho com um “debate” animado e amigável ou qualquer outra atividade social baseada em confiança fundamental. Quando observo o desenvolvimento corporativo de D&D, o que vejo é uma série cada vez maior de salvaguardas contra o fato de que os jogadores não estarão jogando em um ambiente de confiança, de que não estarão jogando com amigos. É por isso que fico perplexo com a elevação de “não seja um idiota” ao nível de sabedoria nos círculos de jogos hoje em dia. O fato de, por exemplo, Raggi ter sentido a necessidade de incluir esse conselho como “Regra Um” em seu Referee Book diz muito sobre as suposições do cenário contemporâneo de jogos.
Talvez eu tenha sido mimado todos esses anos, jogando com amigos e pessoas em quem confio plenamente, não sei. É por isso que, mesmo achando que tenho uma compreensão melhor do que Gary provavelmente queria dizer em seus vários editoriais, ainda assim não “capto” isso em um nível intuitivo. Defender uma abordagem “segundo Hoyle” [de acordo com o "plano" ou as regras] para Dungeons & Dragons me parece uma solução à procura de um problema ou, de forma mais cínica, uma maneira de resolver um “problema” que também convenientemente mantém os jogadores dependentes da TSR — e de seus produtos. Acho que a mobilidade de jogadores, em um vácuo, é uma questão imaginária. Pela minha experiência, fora de convenções, os jogadores simplesmente não ficam vagando por aí e entrando aleatoriamente em grupos de jogo já existentes com os quais não têm nenhuma conexão amigável prévia.
E é disso que tudo isso trata, no fim das contas: amizade. Para mim, jogar é uma extensão da amizade, uma atividade social da qual participo com pessoas por quem tenho afeto e em quem confio o suficiente para “me abrir” da forma que o RPG às vezes exige. Em um ambiente assim, não há necessidade de uma uniformidade imposta oficialmente. Simplesmente não acredito que isso seja diferente hoje do que era há quase 30 anos, quando Gary Gygax escreveu aquele editorial.
∞ James Maliszewski ∞
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1. https://grognardia.blogspot.com/2010/09/friendship-and-rpgs.html
2. https://dustdigger.blogspot.com/2026/04/as-eras-de-d.html
3. http://grognardia.blogspot.com/2009/02/when-in-rome.html
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