domingo, 18 de janeiro de 2026

Monstros

(Tradução, com permissão do autor, do texto presente em [1], publicado em fevereiro de 2019)

Melkor... Concepção artística de SpentaMainyu, via Wikipédia...

Na mitologia e no folclore europeus, os monstros cumprem uma função muito importante. Eles são um aviso. A raiz etimológica da palavra vem do latim monstrum. Monstrum era um sinal ou presságio que interrompia a ordem natural devido ao desagrado divino. Isso aparece repetidamente no mito e no folclore.

Faça coisas ruins e o Krampus virá e baterá em você com uma vara. Se você se aventurar em lugares selvagens, seja cauteloso, pois Long Lamkin espreita no musgo e fará maldades contra você. Trabalhe duro e fie seu linho, ou a Mãe Perchta abrirá sua barriga, puxará suas entranhas e as encherá de palha e pedras. Os monstros se comportam de maneira transgressora. Eles ameaçam a estrutura moral e social da sociedade, e os humanos podem convidá-los a entrar por meio de suas próprias transgressões.

Muitos dos monstros em D&D foram emprestados do mito e do folclore. No mito, monstros são inimigos da ordem natural e da sociedade civilizada. Permita que um monstro viva e ele causará destruição. A destruição é da sua natureza. Ele não pode agir de outra forma. Monstros não podem ser redimidos e devem ser destruídos para preservar a comunidade, a tribo ou a civilização. Grendel não bate educadamente e pede hospitalidade. Ele invade o salão, esquarteja e devora os convidados. O ciclope não convida Odisseu e sua tripulação para entrar; ele os come. Nossos heróis respondem da maneira heroica apropriada. Eles matam o monstro.

Muitos monstros de D&D foram emprestados das pulp fictions de espada e feitiçaria, de filmes de monstros e da ficção fantástica. Alguns dos monstros mais comuns e icônicos de D&D vêm de O Senhor dos Anéis. Considero a forma como essas criaturas foram usadas no D&D original infeliz, porque esse erro foi carregado até os dias atuais. Para mim, os monstros em D&D parecem ter principalmente a função de servir como inimigos para os PJs matarem e saquearem. No mito e no folclore, os monstros cumpriam uma função muito maior.

Provavelmente o autor de fantasia mais importante do século XX, J. R. R. Tolkien, tinha um profundo entendimento da função dos monstros na literatura. Seu trabalho como medievalista e filólogo moldou essa compreensão. De fato, seu ensaio Beowulf and the Critics transformou o campo ao reconhecer que Grendel, a mãe de Grendel e o dragão não eram meramente inimigos divertidos para Beowulf enfrentar, mas símbolos importantes e centrais para os temas da narrativa. O tema principal de Beowulf, para Tolkien, era que os humanos devem lutar contra a monstruosidade, a já mencionada transgressão contra a ordem natural e o comportamento civilizado. Assim, vemos nas criações de Tolkien que os monstros de O Hobbit e O Senhor dos Anéis se opõem aos povos livres da Terra Média, sempre buscando destruir. Eles nunca criam no sentido positivo; apenas corrompem o que já foi feito ou tentam criar (no caso de Melkor e Sauron) algo que já nasce corrompido em sua essência.

Um erro que acredito que Gary e muitos outros designers de jogos cometeram foi tratar os monstros como uma espécie de fenômeno natural. Em Keep on the Borderlands, as Cavernas do Caos têm anotações nas descrições das salas indicando muitos monstros jovens e fêmeas. Os Monster Manuals também trazem notas semelhantes. Isso é um erro. Monstros não são, nem podem ser, naturais. Corretamente compreendidos, monstros são abominações, criações dos inimigos da civilização ou dos inimigos dos deuses e servos do Caos. Há apenas uma maneira de lidar com eles: destruí-los. Ao dar-lhes uma explicação biológica para sua origem, Gary os transformou em um fenômeno natural. Isso leva à temida pergunta: “É moral (leal e bom) matar bebês orcs?” Essa questão foi debatida interminavelmente. É um argumento estúpido e facilmente evitável.

Tenho uma solução simples e fácil. Monstros são abominações ou, ocasionalmente, manifestações brutas de fenômenos naturais (como elementais, por exemplo). Eles devem ser destruídos para o bem da comunidade. Ponto final. Eles não têm bebês nojentos nem parceiros.

Nos meus cenários de campanha, os monstros são o resultado de…
  • Geração espontânea/Emergência do cosmos: goblins surgem de acúmulos de excremento e lixo. Lixões, esgotos, fossas e montes de detritos. Eles estão em toda parte nas cidades, especialmente onde há esgotos subterrâneos. Locais degradados estão infestadas deles. São tão comuns quanto ratos.
  • Demônios emergem do Caos turbulento do Vazio.
  • Um Mago/Cientista Louco/Alienígena Fez Isso: uso extensivamente The Complete Vivimancer, de Gavin Norman, no meu cenário. Muitos monstros foram criados por magos malucos mexendo com coisas com as quais não deveriam mexer. Alguém falou em Urso-Coruja?
  • Um Demônio/Deus/Old One Fez Isso: os Imortais têm seus próprios propósitos inescrutáveis para tudo o que fazem. Às vezes pensam algo como: “Sabe, eu realmente gostaria de transar com essa coisa gostosa, multitentaculada, com 100 cabeças.” Outras vezes, precisam de guardas, carcereiros, torturadores ou servos, então os criam.
  • Mortos-vivos: enterrados de forma inadequada, animados por um necromante, punição por ter sido um babaca em vida, assassinato ou morte violenta e incapacidade de descansar etc. Obviamente antinaturais.
Monstros são sempre maus. Mate-os com fogo. Exceto quando forem imunes; nesse caso, mate-os com outra coisa.

∞ Travis Miller ∞

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