(Tradução, com permissão do autor, do texto presente em [1], publicado em fevereiro de 2026)
| Contos de um Ex-Aluno da TSR |
Um dos problemas com que a administração teve que lidar na TSR, e que quase ninguém fora da empresa conhecia, era este:
Gary Gygax e Dave Arneson recebiam cada um 5% das VENDAS NO VAREJO dos produtos de Dungeons & Dragons.
Esse foi o acordo original de 1974, feito com um aperto de mãos — 10% para cada um. Em abril de 1975, um acordo por escrito reduziu para 5% cada, mas agora a TSR possuía D&D integralmente. Os criadores mantiveram seus royalties; apenas perderam a posse da propriedade intelectual.
Mais tarde, outros designers negociaram acordos de royalties semelhantes para os produtos que criaram. Mike Carr recebeu 5% sobre B1 “In Search of the Unknown” — lucrativo o suficiente para que Gary escrevesse B2 ele mesmo para recuperar essa receita. Rob Kuntz recebeu royalties sobre Supplement I e outros trabalhos que criou.
As taxas de royalties variavam por produto e negociação. O próprio Gary recebia entre 2,5% e 7,5%, dependendo da obra — ele recebeu 7,5% sobre Unearthed Arcana. Mas, em toda a linha de produtos de D&D, as obrigações acumuladas de royalties se somavam.
Um livro de US$ 20 vendido para uma loja de varejo precisava ser vendido com pelo menos 60% de desconto para o distribuidor e o varejista. Isso significa que, para cada livro de US$ 20 vendido, a TSR recebia US$ 8.
Mas os royalties eram retirados primeiro — calculados sobre o preço de varejo de US$ 20, não sobre os US$ 8 que a TSR recebia. Em produtos em que vários criadores tinham participação, a TSR podia estar pagando US$ 2, US$ 3, até US$ 4 em royalties antes mesmo de tocar no dinheiro.
E o que restava precisava cobrir impressão, armazenamento, envio, salários da equipe, custos operacionais. Tudo.
Quão grandes eram esses pagamentos de royalties? Em 1980, Gary mostrou a Rob Kuntz um cheque de royalties de US$ 285.000 — por três meses. Isso é mais de um milhão de dólares por ano para um único criador. Em 1983, os royalties anuais de Gary eram de US$ 370.000. Em 1984, haviam subido para US$ 750.000. Jim Ward descreveu Gary recebendo “cheques de meio milhão de dólares”, enquanto o próprio Ward recebia US$ 20.000.
E Gary não era o único sendo pago.
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Em 1977, a TSR tentou escapar do problema dos royalties alegando que Advanced Dungeons & Dragons era um “jogo separado” que não acionava os 5% de Arneson. Eles pararam de pagá-lo.
Arneson processou a empresa em 1979.
O caso foi resolvido em março de 1981. A TSR pagou a Arneson US$ 600.000 em royalties atrasados e concordou em pagar US$ 1,2 milhão em royalties futuros, com um limite anual. Sua taxa sobre produtos de AD&D foi reduzida para 2,5%.
Esse acordo mostra três coisas: os 5% originais eram reais, eram calculados sobre o preço de varejo, e a TSR estava desesperada para se livrar desse compromisso.
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Antes de Lorraine Williams entrar em 1985, a maior parte do negócio era administrada por Kevin e Brian Blume. Eles perceberam o problema matemático cedo.
Como disse um insider: Kevin “reconheceu a total impraticabilidade dos acordos de royalties de Gary. Na visão dele, aqueles royalties estavam afundando a TSR.”
É por isso que a TSR continuou lançando outros jogos:
- Metamorphosis Alpha
- Gamma World
- Top Secret
- Star Frontiers
- Boot Hill
- Gangbusters
- E muitos, muitos outros produtos.
Eles faziam jogos nos quais os criadores não tinham reivindicações antigas de royalties. Jogos nos quais realmente podiam obter lucro para manter a empresa funcionando.
Mas D&D era o carro-chefe. Era o que as pessoas queriam. E também era o produto com as piores margens.
A estratégia de diversificação dos Blume não era aleatória — era sobrevivência. Quando Kevin falava em substituir D&D por outros produtos, ele não estava sendo desleal ao jogo. Ele estava tentando criar fontes de receita que não exigissem pagar tantos royalties ao Gary.
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Em meados da década de 1980, a TSR estava sangrando financeiramente. A empresa havia demitido quase 200 pessoas. Devia mais de US$ 1,5 milhão ao banco. Sua linha de crédito tinha sido drasticamente reduzida.
E durante tudo isso, os cheques de royalties continuavam sendo enviados.
Em 1983 e 1984 — enquanto a empresa estava perdendo dinheiro rapidamente — Gary ganhou mais de US$ 1,1 milhão em royalties. O boletim interno da empresa até brincava com isso: “O Porsche do Brian é uma fração dos pagamentos de royalties do Gary.”
Mary Jo Gygax lembrou: “Sempre havia uma grande discussão e uma grande briga sobre quanto de royalties haveria para ele ou mesmo para o Rob ou qualquer um dos outros escritores. Eles não gostavam de pagar royalties.”
Eles não gostavam de pagá-los porque não podiam se dar ao luxo de pagá-los.
Quando a recompra das ações dos Blume estava sendo negociada, as ações da TSR foram avaliadas internamente em menos US$ 200 por ação. A empresa estava tão afundada que possuir ações significava responsabilidade financeira, não patrimônio. Harold Johnson perguntou a Gary se deveria vender suas ações. Gary disse que não — porque ninguém as compraria.
Então Lorraine Williams pagou aos Blume para exercerem suas opções e transferirem as ações para ela.
Pergunte a si mesmo por que alguém pagaria por uma empresa que estava sangrando — a menos que visse uma maneira de parar o sangramento que os proprietários atuais não conseguiam executar.
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Lorraine Williams entrou em 1985 como aliada de Gary Gygax. Ele a contratou para ajudar a colocar as finanças da empresa em ordem.
Por um tempo, Gary e Lorraine trabalharam juntos. Segundo alguns relatos, até como amigos.
Então ela viu o quadro completo.
Ela percebeu que a TSR não poderia sobreviver sob sua estrutura atual. Os royalties eram parte do problema. A dívida era parte do problema. A má administração dos Blume também era parte do problema.
Agora, Gary não ia abrir mão de sua porcentagem. Ele a havia conquistado. Ele havia criado D&D.
Mas a matemática não se importava com quem tinha direito a quê.
Anos depois, Harold Johnson perguntou a Gary se ele tinha algum arrependimento. Ele se arrependia de que poderia ter prolongado a vida da empresa se tivesse simplesmente aceitado receber menos royalties?
Ele se arrependia.
Em outubro de 1985, Williams havia negociado com os irmãos Blume para comprar suas ações. Isso lhe deu controle majoritário. Gygax levou a TSR aos tribunais para bloquear a venda. Ele perdeu.
E assim, de uma hora para outra, Gary estava fora.
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Agora, não estou tentando fazer ninguém parecer maligno aqui.
Gary Gygax, Dave Arneson, Mike Carr, Rob Kuntz — eles criaram algo incrível. Eles mereciam ser compensados.
No início dos anos 1970, ninguém sabia o quão grande o jogo se tornaria. Pedir 5% de um jogo de hobby que talvez vendesse algumas milhares de cópias? Isso era razoável. E até meados dos anos 1980, os designers da TSR rotineiramente recebiam royalties pelo que criavam. Era prática padrão.
Mas esse modelo de negócios não funcionava quando você estava faturando milhões de dólares.
Hoje, se você tiver sorte, recebe uma porcentagem do lucro. Talvez uma porcentagem do preço de atacado. Mas ninguém recebe uma porcentagem do preço de varejo. Nunca.
As porcentagens que eles negociaram nos primeiros dias, quando D&D era um hobby de nicho, tornaram-se insustentáveis quando D&D virou um fenômeno cultural.
E também não estou tentando fazer Lorraine Williams parecer malvada.
Não me entenda mal. Lorraine acabou fazendo coisas depois que não ajudaram. Mas isso é outra história.
A recompra em si? Aquilo foi matemática. Ela viu uma empresa sangrando financeiramente e fez a única coisa que poderia parar o sangramento. Se você chama isso de aquisição hostil ou de cirurgia de emergência depende de onde você está olhando.
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Foi isso que realmente prejudicou a TSR.
Não apenas a má administração.
Nem produtos ruins.
A matemática.
O problema dos 5%.
O fato de que o produto mais bem-sucedido da TSR era justamente aquele com o qual eles ganhavam menos dinheiro.
Há dois lados em toda história. E, nesta, ninguém estava completamente errado.
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*Fontes primárias: Harold Johnson (funcionário da TSR por 21 anos), podcast “When We Were Wizards” (história oral com vários ex-funcionários da TSR), registros do acordo judicial Arneson vs. TSR (1981).*
*Mais histórias em breve.*
*Podcast: “AD&D is a Hell of a Thing”*
Ken "Whit" Whitman
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