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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O Orc Incompreendido

(Tradução, com permissão do autor, do texto presente em [1], publicado em junho de 2020)

A Wizards of the Coast anunciou que faria mudanças nos orcs, drow e Vistani em futuras impressões de seus trabalhos. A decisão em relação aos Vistani faz sentido, pois eles são um análogo do povo Romani, e continuar a utilizar um estereótipo preconceituoso de um povo real é uma mancha feia no jogo. Os drow… eu entendo, mais ou menos, eu acho. O fato de Drizzt Do’Urden ter superado a cultura, o culto maligno e a servidão a Lolth mostra que os drow escolhem ser “maus”, e portanto é uma questão cultural, não da espécie. Já o orc, por outro lado, não precisa ser mudado da forma que eu espero que será.

Gary Gygax e Dave Arneson tomaram emprestados diversos elementos de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, de Tolkien. A maioria de vocês está ciente das muitas invenções e interpretações emprestadas da mitologia germânica que o Professor colocou em suas obras e que depois encontraram seu caminho em Dungeons & Dragons. Como muitos dos monstros e conceitos emprestados de D&D, o orc entrou no jogo apenas com parte de seu contexto original.

Os orcs são “inerentemente malignos” porque, na Terra Média, todos os monstros são abominações. Melkor cria muitos monstros, incluindo lobisomens, dragões, balrogs e orcs, como zombarias e adversários dos filhos de Ilúvatar. Muitos desses monstros são maia caídos colocados em forma física. Eles são demônios no sentido Cristão da palavra; anjos caídos. Tolkien, algo que não é amplamente conhecido, criou grande parte da Terra Média não com certezas fixas, mas da mesma forma que o folclore e a mitologia emergem como um processo iterativo ao longo de séculos. Existem diferentes versões da história da origem dos orcs. Tolkien mudou várias partes da grande narrativa da Terra Média muitas vezes ao longo dos anos, e o orc não foi exceção.

Em uma versão, os orcs são criações de Morgoth a partir de “calor e lodos”; em outra, são elfos capturados, torturados e corrompidos para fins malignos. Seja qual for a forma como Melkor criou os orcs, ele o fez com a intenção de zombar de Ilúvatar e criar escravos e soldados para cumprir sua vontade. Está claro que, na Terra Média, eles são maus por natureza, não por escolha. Os orcs de Tolkien conhecem apenas o ódio.

Uma das poucas áreas de amplo consenso entre estudiosos de literatura Medieval é que os monstros nas histórias antigas não existiam apenas como um inimigo divertido para os heróis enfrentarem. Eles representavam os “pecados” da humanidade, como ganância, crueldade, assassinato e destruição desenfreada. Nos mitos antigos de Gregos e Romanos, com os quais Tolkien estava muito familiarizado, os monstros eram manifestações daquilo que a sociedade rejeitava. Os monstros são uma ferramenta narrativa para expressar aquilo que não somos. É a cultura dizendo: “Nós não nos comportamos assim”.

Obviamente, no mundo real, não existem pessoas inerentemente más. Todos nós carregamos o potencial tanto para o bem quanto para o mal dentro de nós. As pessoas escolhem o mal, e frequentemente aquelas que cometem o mal acreditam que o que estão fazendo é a coisa certa. O malfeitor pode racionalizar seus atos terríveis como obediência a ordens, serviço a Deus, fazer o que é necessário ou proteger uma instituição ou pessoa querida. Tolkien, que testemunhou os horrores da Primeira Guerra Mundial, estava bem ciente disso. Na citação a seguir, Tolkien expressa a seu filho que sentia que havia “orcs” em ambos os lados da Segunda Guerra Mundial.
«Sim, acho que os orcs são uma criação tão real quanto qualquer coisa na ficção “realista”… só que na vida real eles estão em ambos os lados, é claro. Pois o “romance” surgiu da “alegoria”, e suas guerras ainda derivam da “guerra interior” da alegoria, na qual o bem está de um lado e vários modos de maldade do outro. Na vida real (exterior), os homens estão em ambos os lados: o que significa uma aliança heterogênea de orcs, bestas, demônios, homens naturalmente honestos e anjos.»

Carta de J. R. R. Tolkien a seu filho Christopher durante a Segunda Guerra Mundial
Na narrativa, o mal inerente é uma ferramenta que o contador de histórias pode usar para criar um inimigo metafórico a ser comparado com o bem do protagonista heroico. Isso permite que o narrador tome uma posição, separe e deixe claro o que é um comportamento aceitável e o que não é. Na ficção moderna, isso é raro. O público tornou-se desinteressado no protagonista puramente heroico lutando contra o monstro puramente maligno. Como Tolkien estava intencionalmente recorrendo às antigas estruturas e fórmulas míticas, os orcs são simplesmente maus. Ponto final.

A inclusão do orc na versão original do jogo, na minha opinião, aconteceu porque os jogadores estavam interessados em lutar contra os mesmos monstros que os heróis de O Senhor dos Anéis. Gary e Dave estavam se curvando à “regra do legal”. Essa é uma função legítima para os orcs e outros monstros. O próprio Tolkien mencionou, em sua palestra The Monster and the Critics, que os monstros na literatura mítica serviam como a “velha infantaria”, pronta para ser massacrada pelos heróis do mito e da lenda.

No Monster Manual de Advanced Dungeons & Dragons, Gary introduziu a ideia de que os orcs tinham fêmeas e “crianças”. Gary agravou o problema, que foi mantido em edições mais recentes do jogo, ao escrever os meio-orcs como uma raça jogável. Não é particularmente claro como os números dos orcs cresciam nas histórias de Tolkien. Ele usava principalmente a palavra “multiplicaram-se” para descrever o crescimento da população orc, e nunca há uma descrição de crianças ou fêmeas orcs, até onde tenho conhecimento. Há apenas um caso que conheço em que um orc recebe uma linhagem: o orc Bolg, que era filho de Azog. Ambos eram inimigos amargos dos anões. Crianças orcs ou heróis meio-orcs nunca aparecem na obra de Tolkien. Há especulações em O Senhor dos Anéis de que Saruman, de alguma forma, misturou orcs e homens, mas isso era considerado algo maligno.

No Monster Manual da 5ª edição, os orcs são criados por Gruumsh, um deus maligno da destruição. De acordo com o cânone atual, Gruumsh criou os orcs para realizar a tarefa de destruição e assassinato. Eles são monstros no sentido clássico da palavra. No entanto, eles mantêm o “naturalismo” de ter descendentes nascidos por reprodução sexual. Já escrevi sobre como isso pode criar problemas em uma postagem anterior [2]. Isso torna a questão um pouco confusa, ao sugerir a possibilidade de que talvez o orc não seja inerentemente maligno.

Não sei o que a Wizards of the Coast fará com os orcs. Talvez eles mudem a forma como descrevem a “cultura” orc, mas mantenham o conceito básico do orc. Talvez decidam, como foi sugerido em sua declaração, que os orcs são “pessoas” e não inerentemente maus. Talvez decidam que os orcs apenas possuem uma cultura que venera o mal, mas que o orc individual poderia ser reformado e nutrido para a bondade. Teremos que esperar para ver.

∞ Travis Miller ∞

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